| 30/01/2010 - 01:57 |
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Dra. ZildaMarcos Rolim
Site: http://www.rolim.com.br
E-mail: marcos@rolim.com.br
A tragédia no Haiti é algo que nos deprime e só imaginar o horror que tantas pessoas estão vivendo nestes dias já é doloroso.
Neste momento, tudo o que puder ser feito em solidariedade às vítimas será importante e penso que o mundo deve reconstruir Porto Príncipe, tão rapidamente quando possível. Quero pedir licença, entretanto, para falar de uma pessoa cujo desaparecimento agrava especialmente o luto dos ativistas pelos direitos humanos no Brasil. Falo de Zilda Arns Neumann, irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, que coordenava a Pastoral da Criança desde 1983. Graças à Pastoral e à dedicação da Dra. Zilda, o Brasil passou a ter um programa de acompanhamento de crianças pobres, menores de 6 anos, de norte a sul. Hoje, a Pastoral da Criança tem 260 mil voluntários (92% deles mulheres) que dedicam, em média, 24h por mês de seu tempo à assistência social. Este exército de paz acompanha quase dois milhões de gestantes e crianças e 1,5 milhão de famílias pobres em mais de 4 mil municípios brasileiros.
O trabalho de Zilda Arns, pelo qual foi indicada três vezes ao Nobel da Paz, seguirá sendo vitorioso, porque centrado, desde o seu início, na prevenção (os voluntários, na verdade, fazem o papel de agentes comunitários de saúde) e porque ela sempre trabalhou em equipe e em rede, montando uma estrutura de trabalho comunitário que nenhum governo saberia montar.
Conheci a Dra. Zilda em eventos de defesa dos direitos das crianças e adolescentes há muitos anos e recordo a maneira cativante e apaixonada como falava dos seus desafios junto aos excluídos. Médica pediatra, especialista em saúde pública e consultora do UNICEF, era reconhecida também por sua capacidade técnica. Poderia ter escolhido muitos futuros, mas selou seu compromisso maior com as crianças de nossas periferias. Incansável, em 2004 fundou a Pastoral da Pessoa Idosa que já acompanha cerca de 130 mil idosos com o trabalho de 14 mil voluntários
Em pronunciamento no Haiti, Dra. Zilda relatou pela última vez sua experiência no Brasil para que outras nações se apropriassem de sua metodologia. Nesta oportunidade, afirmou, com base em estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), que crianças maltratadas possuem muito mais chances de se tornarem adultos violentos e que, se queremos enfrentar a violência contemporânea, temos que aprender a amar e a respeitar nossas crianças, como Jesus ensinou.
O Brasil chora pelo Haiti e pelo flagelo das enchentes e a morte de Zilda Arns sintetiza o absurdo de todas as tragédias. O exemplo dela, entretanto, seguirá disponível para todos nós. Pelo que, respeitosamente, lhe dizemos – “muito obrigado”.
Jornalista e sociólogo, professor da Cátedra de Direitos Humanos do IPA e consultor em segurança pública e direitos humanos. Ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.